FASES

Catharina Fortunato de Barros




Eu estava procurando palavras para descrever o meu momento, quando deparei com um artigo que não é bem o meu caso, mas semelhante.

As limitações chegam mais cedo do que você pensa. Tudo fica mais distante do que era antes. Nossa casa grande, agora se tornou imensa, os quartos parecem tão longe, tudo parece subida. Os poucos degraus estão mais altos do que costumeiramente e já percebi que as letras do jornal ficaram menores e cansativas... Ao lê-las, logo vou sentindo sono.

Parece um absurdo pedir para falarem mais alto. Parece-me, agora, que todos falam baixo e com palavras mal pronunciadas, as quais não conseguimos entender.

As roupas incomodam. Parecem mais apertadas e sentimos dificuldades para vesti-las. É normal enfiarmos as duas pernas numa só.

Às vezes encontramos pessoas amigas, e ficamos tentando reconhecer aquela fisionomia e o mesmo deve acontecer com os outros que nos vêem.

Eu me pus a pensar nessas coisas, nesse período ocioso que atravesso com uma crise de artrose, impossibilitada de caminhar normalmente.

Espero em Deus vencer essa etapa, para não acreditar que a velhice chega mais rápido do que se pensa.

O certo é diminuir a marcha, sem deixar o carro parar...

LIBERTANDO A POESIA

Bêne Barichello





Noite afora, a madrugada chega, libertando a poesia para amparar minha inquietação. Há um revezamento dentro de mim. Às vezes é uma descida íngreme, outras há mãos, que me sustentam atadas com graça e doçura, estimulando-me a seguir equilibrando-me na vida.

Por que será que ela, a Poesia, lembra saudade, desencanto, como orações repetidas?

O meu ser-poeta ainda é tão puro! Vê estrelas cadentes quando visitam a terra, ainda vê encanto em crianças que cabulam às aulas, lembra com carinho e alegria de alguém ao sentir um perfume, sorri com a chuva tilintando pelas calçadas como a cochichar baixinho que ouve namorados aos beijos silenciosos.

Visto meus olhos com tudo que gostariam de ver, até um mundo irreal, tentando talvez acalentar tantos corações vazios de amor, jardins sem flores, noites sem estrelas e sem brilho de luar.
Ah, Poesia, liberta dentro de mim! Deixa-me recostar no meu peito, que de mansinho me ajeito esperando a noite passar!

WWW.VIDA.ALEGRECHEGADA

Bêne Barichello





Deus chamou-me à vida, em uma reunião festiva de anjos. Disse-me ele:

– Olhe a terra, veja quantas luzes piscando, as flores, o mar, as florestas! Ainda é verão, mas no nascer da Primavera você com certeza vai estar entre aqueles que você escolheu para amar e que vão dar-lhe guarida e retribuir seu amor.

Olhei toda imensidão desse lindo lugar, vi Paris, a cidade-luz; Roma, a cidade eterna; Espanha, Jerusalém onde meu Deus e Senhor escolheu para que o seu filho amado fosse levar a boa nova. Foi então que vislumbrei o mais florido e afetuoso país, o Brasil! E vi a cidade maravilhosa, as mais lindas praias no norte e nordeste, a linda Florianópolis.

Assim, indo e voltando com os olhos brilhantes, avistei uma pequena cidade e nela um pequenino bairro e percebi com toda clareza do meu pequeno coração aqueles que escolhi para serem meus pais, Giovanna e Adilson. A minha alegria foi ficando mais forte, quando percebi aquele serzinho no seio dessa família, já terei um irmãozinho para amar.

Meus pais! Eu já os amo e por isso tomo a liberdade para fazer-lhes alguns pedidos, prestem bem atenção. Quero ser muito amada e por esse amor peço-lhes, não deixem que roubem minha alegria, e sem pedir licença destruam minha infância. Ensinem-me a ver a assinatura de Deus em tudo e em todos. Que possa eu dar e receber sem pedir contas daquilo que eu fizer. Vou chegar, depois de passar nove meses conhecendo você, mamãe... E sei quando você chora ou ri. Quando está preocupada, você percebe os meus empurrõezinhos em sua barriga? É para chamar-lhe a atenção e acalmá-la. Sinto o seu carinho, papai, o seu esforço para chegar cedo e deixar a mamãe tranqüila e até as suas mudanças de hábitos. Vejo também suas travessuras e as suas alegres peripécias, Leandro, meu irmãozinho... No meu dia de chegada, não sei se terá o brilho abençoado do sol ou a sagrada noite cheia de estrelas.

Ah! Que mundo maravilhoso! Verei o vermelho das rosas, elas florescem para nos alegrar, as cores do arco-íris refletidas no rosto das pessoas que passam. Vou chegar risonha e feliz. Deixem as cascatas de lágrimas desabrocharem, é a felicidade que está chegando novamente. Preparem o coração!

O CARRASCO

Conceição A. Giacomini Soares




O carrasco me tortura,
Tenho que seguir caminho.
Piedade em seu olhar?
Impossível! Na mesa, o vinho.

Quero me embriagar, me anestesiar.
Não. Não posso! Ele não deixa!
Tenho que tudo sentir, tudo...
Cada instante, cada partícula.

Meus anjos querem me salvar.
Abrem as asas, descem, descem.
Inatingível! Uma redoma se formou.
E ele continua lá, o demente.

Ouço apenas a voz que brota.
Que brota do solo sólido,
Sob meus pés descalços, nus:
- Siga em frente... Só em frente!

Ainda me questiono, em desespero:
- Como não olhar para trás,
se o meu passado está presente
no meu futuro para sempre?

Sim.O carrasco é a minha consciência!
Mudou até o gênero para confundir-me,
para que eu sinta os másculos contornos,
a rigidez endurecida de sua parca pirataria.

Enganou-me, o perverso, o devasso.
Indicou-me as muralhas mais altas.
Mostrou-me a geleira mais fria,
e levou-me pela pedreira mais pontiaguda.

Percebi então, sua crueldade, sua vileza,
No momento em que do carrasco me apropriei.
Torturei-me, desisti de lutar, entreguei-me
ao flagelo das noites sem sonhos, sem sonos.

Conclui que não mais preciso dele,
para me degenerar, me ensangüentar.
Eu, por mim mesma, na solidão de meus pensares,
consigo pesares para alimentar-me para sempre...