O CARRASCO

Conceição A. Giacomini Soares




O carrasco me tortura,
Tenho que seguir caminho.
Piedade em seu olhar?
Impossível! Na mesa, o vinho.

Quero me embriagar, me anestesiar.
Não. Não posso! Ele não deixa!
Tenho que tudo sentir, tudo...
Cada instante, cada partícula.

Meus anjos querem me salvar.
Abrem as asas, descem, descem.
Inatingível! Uma redoma se formou.
E ele continua lá, o demente.

Ouço apenas a voz que brota.
Que brota do solo sólido,
Sob meus pés descalços, nus:
- Siga em frente... Só em frente!

Ainda me questiono, em desespero:
- Como não olhar para trás,
se o meu passado está presente
no meu futuro para sempre?

Sim.O carrasco é a minha consciência!
Mudou até o gênero para confundir-me,
para que eu sinta os másculos contornos,
a rigidez endurecida de sua parca pirataria.

Enganou-me, o perverso, o devasso.
Indicou-me as muralhas mais altas.
Mostrou-me a geleira mais fria,
e levou-me pela pedreira mais pontiaguda.

Percebi então, sua crueldade, sua vileza,
No momento em que do carrasco me apropriei.
Torturei-me, desisti de lutar, entreguei-me
ao flagelo das noites sem sonhos, sem sonos.

Conclui que não mais preciso dele,
para me degenerar, me ensangüentar.
Eu, por mim mesma, na solidão de meus pensares,
consigo pesares para alimentar-me para sempre...

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